domingo, 8 de janeiro de 2017

O novo ciclo da saudade

Saudade é uma coisa engraçada. Falta pouco mais de um mês para embarcar de volta ao Brasil; me sentei na varanda hoje, ao fim da tarde, e senti saudade mesmo é do lugar onde ainda estou. Observei a grama verde e vasta do jardim da vizinha, que apareceu quase instantaneamente com seu lindo cão salsichinha para colher os frutos já maduros nas árvores ao seu redor. Ela me cumprimentou e eu lhe desejei um bom dia.

A vizinhança aqui é tão gracinha <3

Subi o olhar e apreciei a vista do pôr do sol, que ilumina em tons avermelhados toda a panorâmica das casas e prédios do meu bairro e além. Notei os traços das montanhas se misturando com as cores abstratas no horizonte, que me confundem sobre o que é céu e o que é terra. Tirei algumas fotos, como faço todos os dias, do mesmo pôr do sol que me tira o fôlego há cinco meses. 


Quando passei a mão pelos cabelos, um fio preto se enroscou entre meus dedos. Me lembrei da sensação de liberdade que tive ao tingi-los neste mês, saindo do vermelho depois de muito tempo ruiva. Pensei brevemente em todas as mudanças que vivi: "aprender" a surfar (ainda falta treinar, mas foram passos gloriosos), fazer doces caseiros, reduzir meu consumo de carne, viver "sozinha" e tantas outras pequenas e grandes coisas. 

Percebi que minha definição de objetivos mudou um pouco. Hoje, quando pensei em quem eu queria ser, pensei apenas em ser mais otimista. Ser mais paciente, deixar algumas brigas para lá e continuar dando "bom dia" mesmo quando não me respondem de volta. Ao contrário do passado, em que "quem eu quero ser" significava "jornalista, bem sucedida, mãe" e tantas outras coisas, hoje eu acho que só quero ser uma versão melhor de mim mesma. Ver a simplicidade nas coisas. Admirar um pôr do sol e sentir que o dia valeu a pena apenas por isso. Talvez melhorar minhas táticas com o brigadeiro pra evitar que grude no fundo da panela.

Convivi com tantas pessoas em diferentes situações neste meio tempo. Acho que nunca na vida tinha tido tantas pessoas estranhas ao meu redor, seja estudando comigo, me atendendo em lojas e restaurantes, resolvendo minhas burocracias e até mesmo morando comigo. Hoje, na varanda, penso em como todos eles se transformaram gradualmente em conhecidos. O caixa simpático do meu mercado favorito, meus colegas de casa, minha colega de quarto, a menina arrogante da aula, o professor atrapalhado que deu as melhores aulas, a instrutora simpática da academia que eu sempre encontro no bar da praça... Tudo é conhecido. Assisto ao sol ir embora sabendo que amanhã ele voltará ainda mais brilhante, sempre pontual.

A saudade se instalou e eu nem fui embora. Se instalou sobre as pessoas que gosto, o jeito que decoro meu quarto, os lugares que frequento e a rotina de "bom dias", louças, risadas e caminhadas na volta pra casa. Entrei, pois o frio começou a se instalar novamente assim que o sol deu lugar à lua. Coloquei outro casaco e aí surgiu o pensamento mais louco de todos: vou sentir falta de passar todos os dias com meias compridas.

Se até do inverno, que um dia eu odiei, assumi sentir falta... Acho que essa saudade não terá qualquer limite. Mas sabe, é bom sentir saudade. Quer dizer que aproveitamos e demos o máximo para retribuir cada coisa boa. Não sei se esses cinco meses foram os melhores da minha vida, principalmente porque sinto muita falta da minha família (amigos inclusos), mas foi um tempo cheio de amor e que vai sempre me trazer a vontade de permanecer na estrada dos sonhos. Coimbra, ao seu modo, se tornou meu lar, também. Vou contemplar seu pôr do sol toda vez em meus sonhos, quando estiver longe, mas eu nunca vou me afastar. Me senti feliz e satisfeita em ter mais um dia contemplando esse espetáculo natural.

Vocês não acreditariam no número de fotos que eu tenho desse mesmo ângulo
Tudo que é conhecido se tornou parte de mim, também, acompanhando minhas nuances. Foram tempos incríveis para mudar e permitir a mudança. Estou viva e apaixonada, inspirando cada momento com vontade para ver se consigo gravá-los naquele canto da memória que a gente nunca pode esquecer. Vamos ver como será o tempinho que ainda tenho por aqui, mas enquanto isso... Fica a saudade antecipada. Mas com boa dose de orgulho e satisfação por mais um pôr do sol maravilhoso.

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